Formação sobre História da Igreja: Perseguição

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“O SANGUE DOS MARTIRES E A SEMENTE DA IGREJA”

 

Nos anos seguintes à crucifixão de Jesus, muitos de seus seguidores encaravam a perspectiva de sofrer uma morte violenta como a de seu Senhor. Boatos terríveis circulavam a seu respeito. As autoridades deles. Não tinham nenhum direito legal à existência. O Império romano normalmente tolerava as religiões, desde que seus adeptos se dispusessem a fazer sacrifícios ao

imperador. Era um teste de lealdade. Os judeus se recusavam, mas, estabelecidos há muito tempo, ainda eram tolerados, desde que permanecessem leais. Como disse Celso, “a religião dos judeus pode ser muito peculiar, mas pelo menos é o costume de seus ancestrais”.Os cristãos não podiam oferecer uma defesa semelhante.

 

RELIGIÃO PROIBIDA

 

Enquanto o cristianismo permaneceu ilegal, os cristãos estavam à mercê do desfavor imperial e da antipatia popular. Felizmente, até 249, nenhum imperador os considerava uma ameaça suficiente para instituir uma campanha sistemática em todo o império contra eles.

Houve, porém, algumas perseguições locais, temporárias, e muitos martírios – termo grego que significa “dar testemunho”. Mal-entendidos turvavam a imagem cristianismo na mente popular. A doutrina eucarística sobre alimentar-se com “o corpo e o sangue do Senhor” era deturpada como canibalismo, e as referências à comunhão como “festa de amor” davam margem a boatos sobre incesto, orgias e sacrifício de crianças. O historiador romano Tácito, escrevendo em c. 115, descreve os cristãos como “uma classe de homens desprezada por seus vícios” e diz que depois do incêndio de Roma em 64 eles foram “condenados, não tanto pelo crime de incêndio quanto por odiarem a humanidade”. Essas atitudes perduraram.

Escrevendo em c. 170, Celso afirmava: “Há uma nova raça de homens nascida ontem, sem pátria nem tradições, unidos contra todas as religiões e intuições civis, perseguidos pela justiça, universalmente notários por sua infâmia, mas gozando de uma execração comum: são os cristãos” A ira popular levava a muitas perseguições. Na época em que Tácito escrevia, Plínio, o Moço, governador da Bitínia (Ásia Menor), pedia em carta ao imperador Trajano instruções sobre como lidar com o número crescente de cristãos que se recusavam a cultuar uma imagem do Imperador. Explicava que lhe haviam chegado queixas contra os cristãos, por causa dos quais os templos estavam “quase desertos”. Isso deixava Plínio com um problema: o que fazer com os cristãos denunciados a ele como súditos infiéis do imperador? Escreveu a Trajano: “Por enquanto, eis o que tenho feito com os que são acusados de cristãos.

Pergunto-lhes se são cristãos e, se confessam, pergunto lhes uma segunda ou terceira vez com ameaças de punição. Se perseveram, ordeno sua execução; quanto aos cidadãos romanos, providencio para que sejam enviados a Roma”. O imperador respondeu, aprovando as táticas de Plínio, enquanto urgia para que os cristãos não fossem caçados, mas punidos somente quando denunciados por informantes. Outros imperadores foram menos gentis: Nero, Domiciano e Marco Aurélio perseguiram a Igreja em Roma.

 

EXISTÊNCIA PRECÁRIA

 

As coisas não melhoravam para os cristãos. Em 177, mais de 48 cristãos foram mortos em Lião, na Gália, por causa de boatos de imoralidade. Três anos depois, 12 foram martirizados em Silicia, África do Norte. Em 202, o imperador Septímio Severo, preocupado com o crescimento da Igreja, proibiu a conversão à fé cristã, suscitando uma grande perseguição.

Houve uma pausa durante o reinado de Alexandre Severo (r. 222-235), cuja mãe era simpatizante dos cristãos. O próprio imperador teria uma estátua de Cristo em sua casa, junto com imagens de Abraão e dos imperadores divinizados. O imperador Filipe, o Árabe (r. 244-249), também era simpatizante e manteve uma ativa correspondência com conhecidos autores cristãos. Sua morte em 249 foi o sinal para tremendas perseguições por todo império.

 

POLlCARPO

POLlCARPO (c. 70-156) foi discípulo de João Evangelista quando jovem. Era bispo de Esmirna, na Ásia Nlenor, em c. 107 e assim permaneceu até morrer. O relato de seu martírio, escrito no século II, é o mais antigo que conhecemos. Conta que a multidão gritava contra ele: “Este é o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses, que ensina tantos a não sacrificar ou adorar”. O juiz insistiu com ele: “Respeita a tua idade. Se insultares a Cristo, eu te soltarei”. Policarpo respondeu: “Por 86 anos tenho sido seu servo, e ele não me fez mal algum. Como posso blasfemar contra o Rei que me salvou?”Foi queimado na fogueira.

 

DESCONHECIDO NA VIDA, FAMOSO NA MORTE

O Martírio de Policarpo registra: “Amamos os mártires como discípulos e imitadores do Senhor, o que eles merecem por causa de sua incomparável devoção a seu único Rei e Mestre”. Este quadro reflete a mesma reverência, que persistiu durante séculos.

Alguns primeiros cristãos levaram a estremo a disposição ao martírio lnácio de Antioquia escreveu: “Que nada mais me seja concedido derramar meu sangue como uma oferenda a Deus… Estou perdido de paixão pela morte”.

 

A GRANDE PERSEGUIÇÃO

 

EM 298, durante sacrifícios pagãos num templo em Antioquia, os sacerdotes pagãos acusaram os cristãos de perturbar a cerimônia. Uma cena terrível ocorreu, e no final as tropas tiveram de intervir.

Foi o prelúdio da mais sangrenta de todas as perseguições.

 

DIOCLECIANO E GALÉRIO

 

Diocleciano, imperador principal, fora tolerante com os cristãos durante vinte anos de seu reinado, pois sua esposa e filha provavelmente eram cristãs. Galério, o césar (imperador auxiliar), opunha-se ferozmente aos cristãos. Após vencer uma batalha decisiva sobre os persas em 296, sua influência cresceu. Em 300, um edito imperial mandava todos os soldados oferecerem sacrifícios, ordem que imediatamente comprometia os numerosos cristãos do exército. A morte era o castigo final. Três anos depois, outros editos foram publicados, exigindo a destruição dos locais de culto, o confisco das Escrituras e a prisão dos clérigos. Diocleciano, porém, conteve Galério: não devia haver derramamento de sangue. Finalmente, em 304, com Diocleciano doente, Galério estendeu o edito a todos os cidadãos do Império, obrigados a oferecer sacrifício aos deuses sob pena de morte. Por todo o império ocorreram execuções, e várias comunidades cristãs foram aniquiladas na África, no Egito e na Palestina.

Tamanha foi a reação pública ao banho de sangue que em 305 Diocleciano foi obrigado a renunciar.  No Ocidente, os novos imperadores, Constâncio e Maxêncio, revogaram os editos e concederam tolerância mais uma vez. No Oriente, Galério, que sucedera a Diocleciano como imperador principal, redobrou a perseguição. Ainda não era o bastante: não conseguiu eliminar o cristianismo. Um autor cristão da época, Lactâncio, chegou a ver a mão de Deus naquela desgraça: “Há outra causa para Deus permitir que perseguições sejam movidas contra nós: o crescimento do povo de Deus”.

Apesar de seu permanente ódio aos cristãos, em 311 Galério foi obrigado a proclamar um Protocolo de Tolerância, que restaurou os direitos dos cristãos a se reunir em público e cultuar em todo o Oriente. Para os cristãos que tinham sofrido durante anos de perseguição e incerteza, era a nova aurora de uma idade de ouro. Mal poderiam imaginar os privilégios que logo desfrutariam sob o novo imperador, Constantino. Como nas perseguições anteriores, houve a seguir um debate sobre como tratar aqueles que blasfemaram durante a perseguição. Infelizmente, esse debate após a Grande Perseguição levaria a uma cisão permanente na Igreja do norte da África.

 

CISMA INCURÁVEL

 

Oitenta bispos norte-africanos objetaram à ordenação de objetaram à ordenação de Ceciliano, bispo de Cartago, em 311 porque fora realizada por um bispo que entregara os livros sagrados aos perseguidores. Elegeram um bispo rival. Era o início cisma permanente que ainda dividia a Igreja no norte da África quando os muçulmanos a invadiram.

Ambos os lados apelaram ao imperador Constantino. Ele se declarou em favor ele Ceciliano e contra seu rival, Donato. Os donatistas viram nisso uma perseguição, perguntando: “O que o imperador tem a ver com a Igreja?”, e  fundaram uma Igreja que teria, em seu auge, 500 bispos. A nova seita aproveitou-se habilmente de uma divisão existente entre os ricos cidadãos de língua latina das cidades costeiras e os pobres falantes de púnico das colinas e do interior. Celebrando em púnico em vez de latim, os donatistas conseguiram revestir um manto de patriotismo local. Também exploraram os recursos práticos, como o controle da principal padaria da cidade de Hipona, para recompensar seus patrocinadores. Além disso, afirmavam que a verdadeira Igreja era a deles. Agostinho resumiu a reação ortodoxa àquilo: “As nuvens trovejam dizendo que a Casa do Senhor será construída em toda a terra, e esses sapos sentam-se em seu charco coachando – ‘Nós somos os únicos cristãos!”

Entretanto, os donatistas floresceram. Sobreviveria a uma tentativa do comissário imperial Macário de esmagá-Ios à força em 347. Coube a Agostinho, apoiado pelo poder do Estado, quebrar sua resistência; a Igreja teve de tornar-se perseguidora para isso, num arremate no mínimo irônico à Grande Perseguição.

 

” TANTOS SOFRERAM QUE O MACHADO ASSASSINO FICOU CEGO, E OS

EXECUTORES SE EXAURIRAM”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DEFESA DA FÉ

 

Diante da perseguição, da ignorância e da hostilidade, a Igreja precisava oferecer uma sólida defesa de suas práticas e crenças. Os escritores que fizeram essa defesa costumam ser chamados de apologistas (aqueles que explicam ou defendem suas crenças). Seu objetivo era oferecer uma explicação racional às pessoas mais familiarizadas com a filosofia grega e persuadir os judeus a aceitar Jesus como seu Messias.

 

OS PRIMEIROS APOLOGISTAS

 

Entre os primeiros apologistas estavam Aristides e Quadrato, que escreveram ao imperador Trajano oferecendo uma explicação racional de suas crenças. Mais famoso é Justino Mártir, que

ensinou filosofia cristã em Roma nos anos 140 e 150 e trabalhou para exprimir as doutrinas cristãs em termos filosóficos. Justino estava ciente das bizarras acusações levantadas contra os cristãos pelos pagãos, como relações sexuais ilícitas e canibalismo. Refutou-as em suas duas “apologias”, e defendeu os cristãos contra a acusação de ofender os deuses e não serem verdadeiros patriotas. O fato de poder dirigir-se ao imperador e ao senado mostra a importante posição que os cristãos estavam assumindo dentro do império pouco mais de um século depois de Cristo.

Talvez o mais poético dos primeiros apologistas tenha sido o anônimo autor da Carta a Díogneto, escrita provavelmente no final do século II para explicar a religião cristã a um pagão interessado. “Os cristãos” escreve o autor, “não se distinguem das outras pessoas nem pela origem, pela língua nem pelo modo de se vestir. Não vivem em suas próprias cidades, nem têm língua própria, nem sequer levam um tipo especial de vida. Vivem em seus próprios países, mas como estrangeiros; toda terra estranha é lar para eles, e seu lar é como uma terra estranha. Vivem sua vida na terra, mas são cidadãos do céu. Obedecem às leis da terra mas, pelo teor de suas vidas, vivem acima da lei.

Amam a todos, mas todos os perseguem. São desprezados e condenados; são mortos e ganham a vida. São pobres, mas tornam muitos ricos. São desonrados, mas ganham a glória por meio da

desonra. São atacados pelos judeus como estrangeiros, e perseguidos pelos gregos; mas aqueles que os perseguem não podem dar nenhuma razão para essa hostilidade. “Em poucas palavras, a alma é para o corpo o que os cristãos são para o mundo A alma está no corpo, mas não é do corpo; os cristãos estão no mundo, mas não são do mundo”.

Vários apologistas também foram importantes lideres da Igreja e teólogos. Ireneu (140-202) foi o segundo bispo de Lião, no sul da Gália (atual França).

Enérgico opositor do gnosticismo e de várias outras heresias escreveu abundantemente, sendo a importante de suas obras os cinco livros Contra as heresias. Ireneu também foi um importante teólogo que trabalhou para definir o cânon do Novo testamento, e cuja Demonstração da pregação apostólica se tornou uma obra-modelo.

Tentou mostrar o que era verdade e o que era erro, utilizando e procurando definir a “Regra de Fé”, o núcleo básico da fé cristã, como uma regra pela a qual a verdade ou a falsidade da doutrina herética ortodoxa podia ser julgada. Esse núcleo acabou sendo resumido nos grandes credos do século IV.

 

PROEZA DOS APOLOGISTAS

 

Irineu e a maioria de seus colegas apologistas tentaram situar o cristianismo bem no centro da cultura contemporânea. Ao fazê-Io, assimilaram diversos elementos da civilização greco-romana.

Eram muito pragmáticos e assumiram de adaptar e adotar: festas pagãs foram incorporadas para se tornar Natal e Páscoa e encontrou-se lugar para a filosofia e literatura pagãs no pensamento cristão, como preparação para o evangelho.

Quando os pagãos alegavam que o cristianismo enfraqueceria o Estado, os Apologistas replicavam que, ao contrario. Ele fortaleceria o Estado contra a imoralidade que o afligia.

A teologia cristã se expressaria cada vez mais em termos filosóficos – tal como ainda é muito hoje em dia.

 

 

Embora os escritos dos apologistas tenham falhado em converter o mundo romano ao cristianismo, eles ofereceram uma sóbria defesa contra os ataques às vezes histéricos de seus inimigos e contribuíram grandemente para a compreensão da doutrina cristã por parte da

Igreja em desenvolvimento.

 

 

 

 

Um dos mais talentosos apologistas cristãos, Tertuliano (c. 160-225) nasceu em Cartago, perto da moderna Túnis, norte da África. Formado em Direito em Roma, retomou a Cartago e usou seu agudo intelecto e sua língua ferina para atacar os inimigos da fé. “Nascemos ontem, mas já enchemos tudo o que tendes – cidades, ilhas, fortes, aldeias, assembléias, até acampamentos militares, tribos, conselhos municipais, o palácio, o senado e o fórum. “Não vos deixamos nada além dos templos”. Além de sua obra apologética e diversas polêmicas com outros cristãos, ele foi um grande teólogo, um dos primeiros a escrever em latim. Sua obra de elaboração do conceito de Trindade permanece fundamental.

 

 

 

 

 

 

 

JUSTINO MARTIR

 

NASCIDO de pais pagãos em c. 100, Justino Martir experimentou várias filosofias antes de ser batizado em c. 130. Após isso, ensinou em Éfeso, depois foi para Roma, iniciou urna escola de filosofia cristã, ensinou com sucesso considerável e foi ordenado presbítero. Escreveu duas apologias para corrigir erros sobre a fé cristã.

A primeira foi dirigida ao imperador Antonio Pio, c. 151, e a segunda ao senado romano em 162.

Justino foi finalmente executado pelo imperador Marco Aurélio, c. 165, com diversos companheiros.

 

 

 

 

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